Quando “ROI positivo” não significa “4 para 1”
Uma revisão sistemática encontrou retorno financeiro positivo em mais da metade das intervenções preventivas avaliadas no trabalho. Mas os próprios pesquisadores concluíram que não era possível calcular um ROI médio confiável. Entenda por que essa diferença importa para decisões empresariais.
Por Will Doll
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A ideia de que programas de saúde mental no trabalho podem gerar retorno financeiro encontra apoio na literatura científica. O problema começa quando essa conclusão é convertida em uma regra simples: investir determinado valor produziria, de maneira previsível, um múltiplo desse valor.
Uma revisão sistemática publicada por Thonon e colaboradores, em 2023, ajuda a entender por que essa simplificação é problemática. Os pesquisadores analisaram 141 artigos, correspondentes a 138 intervenções preventivas realizadas no ambiente de trabalho.
Entre essas intervenções, 56,5% apresentaram retorno sobre investimento positivo, 8,7% resultado negativo, 9,4% resultado neutro e 25,4% não puderam ser classificadas por insuficiência de dados.
Encontrar ROI positivo em várias intervenções não significa encontrar um ROI médio que possa ser aplicado a qualquer programa ou empresa.
Por que não existe um número único
Os estudos avaliados não calculavam retorno econômico da mesma maneira. Alguns utilizavam análise de custo-poupança, outros custo-benefício, custo-efetividade ou medidas como anos de vida ajustados pela qualidade.
A diversidade metodológica foi suficientemente grande para que os autores considerassem inadequado agregar os resultados em um único ROI médio.
Isso muda a interpretação do dado. Dizer que uma intervenção apresentou ROI positivo significa que, naquele estudo e segundo aquele método de cálculo, os benefícios econômicos estimados superaram os custos considerados. Não significa que todas as intervenções produziram a mesma proporção de retorno.
O que entra na conta também importa
Uma avaliação econômica pode considerar redução de afastamentos, utilização de serviços de saúde, produtividade, custos de implantação ou outros resultados. O período de acompanhamento também interfere na estimativa.
Por isso, duas intervenções podem ser apresentadas como economicamente favoráveis e, ainda assim, terem sido avaliadas segundo critérios bastante diferentes.
Para quem toma decisões, a pergunta “qual é o ROI?” é insuficiente sem uma segunda pergunta: “como esse ROI foi calculado?”.
O que a evidência permite concluir
A revisão de Thonon et al. oferece evidências favoráveis à possibilidade de retorno econômico de intervenções preventivas realizadas no trabalho. Ao mesmo tempo, os próprios autores apontam limitações metodológicas, heterogeneidade entre os estudos e possibilidade de viés de publicação.
Esses limites impedem transformar os resultados em uma previsão financeira universal para uma organização específica.
O artigo principal desta série discute também a conhecida estimativa de retorno de quatro para um associada à Organização Mundial da Saúde. O ponto central não é que essa estimativa seja falsa. Ela foi produzida em um contexto específico e não deve ser interpretada como garantia de que qualquer programa corporativo de saúde mental devolverá quatro unidades monetárias para cada unidade investida.
A evidência sustenta a possibilidade de retorno econômico. Não sustenta um multiplicador universal de retorno.
Três perguntas antes de aceitar uma cifra de ROI
Qual método foi utilizado para calcular o retorno?
Quais custos e benefícios foram incluídos no cálculo?
A população, a intervenção e o período de acompanhamento são comparáveis à realidade da organização?
Essas perguntas não eliminam a incerteza. Elas tornam explícitas as premissas que sustentam o número apresentado.
Para decisões empresariais, essa distinção é importante: uma estimativa econômica pode apoiar uma decisão, mas não deveria substituí-la.
Referência principal
Thonon F, Godon-Rensonnet AS, Perozziello A, et al. (2023). Return on investment of workplace-based prevention interventions: a systematic review. European Journal of Public Health, 33(4), 612–618. DOI: 10.1093/eurpub/ckad092.
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